“Não sou um anjo caído” - disse o Demónio do Bem. E continuou: “o meu caminho foi longo e desgastante até aqui chegar. Para quem cai o caminho é fácil, quem ascende tem o percurso dificultado. Cair lentamente é certamente mais difícil do que cair rapidamente. Está na natureza das coisas. Subir sem descansar é fatigante.” E nesse momento o Demónio do Bem sentiu que precisava de um bom pequeno-almoço, e então caminhou por uma vereda que aparentava levar a algum sítio um pouco mais “humanizado”. Não tardou a encontrar uma cabana com um poço, e ao aproximar-se apercebeu-se que ao lado do poço estava sentado um Velho. De aspecto calmo e vertical, o Velho estava de olhos fechados e aparentava estar adormecido, o que fazia lembrar uma estátua numa estranha figura. Aproximando-se do Velho o Demónio do Bem proferiu num tom alto: “Velho! Já o sol banha as tua cabana e o teu poço! São horas de acordar e dar uso à roldana e ao balde!”
Após ter dito estas palavras e ter estranhado o facto do Velho não se mexer nem um milímetro o Demónio do Bem já se preparava para dizer mais qualquer coisa quando foi interrompido pela voz serena do Velho, que, mantendo os olhos fechados, lhe disse: “Reconheço estes passos… trazem consigo uma profundidade que há muito não sentia. A voz, por outro lado, é altaneira e faz lembrar o eco dos mais altos cumes. Quem vem perturbar os pensamentos deste humilde velho?” Foi então que o Velho abriu os olhos e levantou-se num salto. Olhando para o Demónio do Bem e dirigindo-se para o seu poço, continuou: “Sinto uma profundidade que há muito não sentia. Não te reconheço em nenhum dos homens da aldeia mais próxima e não pareces um caminhante. Estarás tu perdido?” O Demónio do Bem, estranhando o modo como o Velho se movimentava calmamente e nada preocupado com a sua presença, perguntou-lhe: “Surpreendes-me, ò velho. Não te apoquenta a presença de um demónio? Sim! Não sou destas paragens, mas não estou perdido, fiz um longo caminho para aqui chegar… vim das profundezas insondáveis e do abismo mais negro! Trago muito para anunciar a este mundo de mortais! Não ouviste o meu grito ao sair do solo? Anunciei-me e anunciei a minha caminhada por este mundo…” Mas o Demónio do Bem parou o seu discurso. O Velho, puxando pela corda que traz o balde com a água do poço e, sem encarar o demónio, apenas abanava a cabeça e sorria. Por fim, disse: “Anunciaste a tua vinda? Ahh… muito bem… mas terá alguém ouvido o que disseste?” O Demónio do Bem parou e sentiu-se envergonhado. De facto preparou a sua vinda, o seu discurso, o seu caminho. Mas não tinha preparado os seus ouvintes…
O Velho, já com o balde cheio de água fresca, continuou: “Nada foi dito até ser ouvido. Mas sei do que falas… das profundezas… eu já lá estive, uma vez.”
– “Impossível! – disparou o demónio – de onde eu venho nenhum mortal conhece o aspecto… como poderias ter lá estado?”
Mas o Velho ignorou o que o demónio acabara de dizer e apenas lhe pediu que se sentasse. Repartiu a água por dois copos de madeira grossos e dirigindo-se ao demónio disse: “Reconheço uma grande vontade em ti, e empenho nesta tua missão. Vejo também um certo desconhecimento das coisas mais básicas deste mundo. Bebamos esta água e… vamos conversar!”
O Demónio do Bem tomou então a palavra e explicou ao Velho o motivo da sua subida ao mundo dos mortais e o seu objectivo de divulgar as profundezas. Conversaram muito até que o Velho lhe propôs o seguinte: iriam almoçar e continuariam a sua conversa depois disso. O Velho entrou na cabana e trouxe duas sopas e um pedaço de pão.
Depois de terem terminado o almoço e o Velho ter lavado as tigelas e as colheres e as ter posto a secar no muro do poço, disse:
“A melhor forma de aprender é ensinar, e a melhor forma de ensinar é fazer.”
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