O demónio deteve a sua já lenta marcha. A lebre, apesar de permanecer imóvel, revelava uma energia e uma inquietude evidentes. Após uns momentos a observar o demónio, explodiu numa frenética corrida, atravessando parte da clareira e desaparecendo por entre a erva alta. Analisando a situação, o demónio reconheceu que a lebre tentava escapar a algo que a importunava. De um lado tinha o rio, de frente o demónio e estando a ser perseguida restava-lhe apenas seguir erva adentro, fugindo num sentido contrário àquele que o demónio pensava tomar. Continuando a seguir o rumo que até então seguia, o demónio avançou pela clareira e aproximou-se do rio. Era mais fácil continuar junto à margem do que tentar atravessar a erva alta. O sol estava já fraco, desaparecendo atrás das árvores do outro lado do rio, o que dificultava ainda mais qualquer tentativa de avançar por entre vegetação mais densa. Tirando uma maçã do saco, o demónio parou para avaliar a sua situação. Afinal de contas, este era o seu primeiro dia neste novo mundo e, apesar de não ter chegado até nenhuma aldeia, tinha já percorrido um vasto caminho. E este novo mundo era de facto muito belo, mesmo sem aquilo que buscava. “Será igualmente belo onde os humanos habitam?” – interrogou-se o demónio, trincando a maçã.
Aproveitando a luz que ainda existia, o demónio caminhou pela margem, já sem se sentir pressionado a encontrar fosse o que fosse nesse dia. A temperatura mantinha-se agradavelmente amena e começavam a aparecer as primeiras estrelas no céu. Apesar de sentir as pernas cansadas o demónio continuou. A sua mente estava desperta e seguir pela margem daquele rio fazia-o recordar alguns dos momentos que vivera neste novo mundo: o Velho e o seu Poço, as estranhas maçãs que trazia consigo, o rio com o cais abandonado, a floresta e os seus sinais. Vendo uma árvore caída o demónio achou por bem fazer ali o seu abrigo para esta noite. Pousou o seu saco, juntou uns ramos e folhas secas, criando um leito e um abrigo simples. A lua fez a sua aparição e subindo como um balão inchado tomou o seu lugar junto das estrelas. O rio espelhava agora o dourado da lua, correndo sereno mas forte. As árvores reflectiam uma luz pálida e todo aquele ambiente fez o demónio sentir-se acolhido por este mundo que até então desconhecia. Os pássaros há muito que haviam terminado o seu chilrear de regresso ao ninho e eram agora os insectos que com a sua melodia acompanhavam o demónio no seu passeio em redor do abrigo. Para melhor contemplar a paisagem em redor, o demónio subiu a uns rochedos que se encontravam ali perto. Começou por admirar o rio e de seguida deitou-se para observar o céu. Mesmo de olhos fechados sentia a natureza em seu redor e o céu lá em cima. Sentindo-se confortável, passaram uns largos minutos até que o demónio se voltou a sentar. Depois de se recompor, olhando em redor algo chamou a sua atenção: via o flamejar de uma fogueira, não muito longe de onde se encontrava! De imediato deixou-se escorregar pelas rochas e agachou-se junto da vegetação. Para melhor observar o local onde se encontrava a fogueira, o demónio continua a caminhar lentamente por entre arbustos rasos, até que chegou a uma distância suficientemente curta para poder observar melhor as redondezas. A fogueira encontrava-se meia escondida por uns rochedos de grandes dimensões, e entre o demónio e a fogueira um vulto movimentava-se ritmicamente, com passos curtos mas rápidos, indo ao rio e desaparecendo por entre os rochedos. O demónio esperou que o vulto voltasse a aparecer, o que aconteceu passado muito pouco tempo. Para melhor visualizar a estranha aparição o demónio foi-se aproximando, tentando ajustar a sua posição para que o luar melhor identificasse o vulto, que continuava a movimentar-se incessantemente entre o rio e o local de onde emanava a crepitante luz da fogueira. Quando já se encontrava suficientemente perto para reconhecer as feições do vulto, o demónio ficou perplexo. A estranha criatura movimentava-se como um homem, ainda que de um modo caricato, mas parecia-se com uma raposa. As peles que a cobriam, o rabo felpudo, eram característicos de uma raposa, mas até o focinho pontiagudo, colocado no topo da cabeça de um homem, não era suficiente para esconder que de facto a estranha criatura não passava de um homem em peles de raposa.
Entrando na densa floresta o demónio parou para se habituar a este novo ambiente. Subitamente o ar ficou mais fresco e o brilho do sol perdia-se nas sucessivas camadas de folhas e vegetação. Embora fosse possível distinguir o caminho por entre as árvores este já não era tão facilmente reconhecido como até então. O chão estava coberto de folhas de diferentes tons, que formavam uma camada espessa mas leve. Avançando pelas folhas o demónio sentiu que de certo modo se afastava daquilo que procurava. Agora tudo lhe parecia mais natural, espontâneo e genuíno: o trilho que até então tinha percorrido era nitidamente um rasgo feito pelo Homem na natureza. A harmonia que agora experimentava era de certa forma contrária àquilo que buscava, pois a assinatura humana era muito mais subtil. Apesar desta sua percepção o demónio sabia que para trás nada iria encontrar para além da abandonada cabana do Velho e como tal seguiu o seu caminho. Por vezes não era fácil distinguir o percurso correcto, mas com o passar do tempo o demónio foi-se adaptando a esta nova realidade e os seus sentidos estavam alerta para seguir o rumo correcto. A paisagem não se alterou muito e, embora fosse mais difícil avançar por este terreno do que por caminhos humanos, o demónio não se deixou abalar e continuou. Por fim, o que restava do caminho terminou numa pequena clareira de erva rasa e verdejante. Avançando com curiosidade, o demónio apressou-se a percorrer o espaço diante de si, sentindo uma brisa húmida e um leve burburinho, para encontrar um largo rio na sua frente. Esboçou um sorriso ao ver que na margem, mesmo ao seu lado, havia um pequeno cais que entrava pelo rio adentro. Sentia de novo a presença humana e aquela simples construção em madeira deu-lhe um novo alento para continuar o seu caminho até à aldeia mais próxima, para estabelecer contacto com os humanos, o propósito da sua visita ao mundo dos mortais…
Mas, depois de ter examinado o local com mais atenção, o demónio sentou-se na beira do cais, pernas caídas, encarando jusante, de olhar baixo posto no rio, pensando nos locais por onde toda aquela massa de água passaria, muitos deles repletos de humanos. O cais era velho e estava nitidamente abandonado. Muitas das tábuas que compunham o passadiço estavam em falta, não existia qualquer espécie de corda ou amarra presa aos pilares que suportavam o cais e, para além das suas recentes pegadas, toda a margem em volta do cais estava imaculadamente intocada. O rio afigurava-se largo e profundo, com uma vitalidade incomum para algo tão grande, aparecendo por entre as árvores e desaparecendo de igual modo, não deixando antever qualquer tipo de construções humanas ou paisagem diferente. Sentado no cais, o demónio fechou os olhos para pensar melhor no que faria a seguir: “Se aqui existe este cais, ainda que abandonado, significa que este rio me levará ao meu destino. Posso construir uma jangada e desse modo percorrer uma grande distância sem grande esforço e, ainda melhor, chegar muito provavelmente a um local habitado…” Mas subitamente o demónio parou de pensar. Todo um conjunto de sensações começaram a apoderar-se do seu cérebro e ele deixou-se levar pela leveza de pensamentos que lhe eram transmitidos directamente pela natureza em seu redor. Ouvia agora os pássaros a cantar as suas diferentes melodias, ouvia o submerso gargarejar do rio ao deslizar por entre as rochas do seu leito, ouvia o silvar da brisa por entre os juncos e o ranger dos ramos… de repente abriu os olhos, olhou em volta e deixou que todas estas novas sensações lhe dessem a resposta que procurava. O caminho que até então tinha seguido era, de forma mais ou menos óbvia, pisado por humanos e facilmente identificável. Mas na natureza existem muitas criaturas e muitos trilhos, caminhos dispostos a ser seguidos desde que devidamente identificados. Semicerrando os olhos, o demónio levantou-se e olhou em seu redor mais uma vez. Sorriu. O que há momentos atrás era um beco sem saída apresentava-se agora como um quadro cheio de cores: as indicações estavam mesmo diante dos seus olhos, nada mais havia a fazer do que segui-las. Tudo era igual, tudo era diferente, dependia apenas dos olhos com que se olhava… Embrenhando-se por entre o arvoredo que ladeava a margem do rio, o demónio chegou a um pequeno trilho, usado por pequenos animais para beber a água do rio. Agachado, continuou a seguir o trilho, por entre arbustos, árvores de pequeno porte e erva alta, com a atenção necessária para não se deixar perder nas subtilezas dos sinais que a natureza lhe apresentava… De repente chegou a uma nova clareira, de erva aloirada e contornada de erva alta. Desta vez avançou com o cuidado e metodologia de quem decifrava um código e, olhando para onde terminava a clareira, viu uma lebre, parada e olhando na sua direcção…
Vendo-se sozinho, ainda surpreendido com o que acabara de presenciar, o demónio olhou para o Poço e esperou. Não tendo escutado nada, decidiu dar uma olhadela pelas redondezas da cabana. Atrás da cabana do Velho havia um pequeno quintal, bem cuidado, e algumas árvores de fruto. Voltou-se para a cabana. Sem o Velho a cabana parecia ainda mais pequena e, embora fosse visível que estava bem tratada, era bastante rústica. Dirigindo-se para a entrada da cabana o demónio olhou novamente à sua volta: para além do poço, do quintal e das árvores, pouco mais era possível deslumbrar do que espessas árvores e largos penedos. O caminho que havia seguido e, pensou ele, o levaria a um local mais “humanizado” acabava precisamente na entrada da cabana. Baixando-se, entrou na cabana do Velho. Para além de uma mesa ampla, um banco e o leito do velho, nada mais lá havia. Sentou-se para pensar no rumo a tomar; o que faria agora, que o único mortal com quem tinha privado havia desaparecido abruptamente? Tinha acabado de chegar ao mundo dos “Homens”, não fazia parte dos seus planos enfiar-se num buraco a que o Velho chamava de Poço sem Fundo. E pensou: “Mesmo que o Velho tivesse razão e esse poço tivesse um fundo de acordo com o infeliz que lá caísse, qual seria esse fim? No limite encontrar-me-ia com mortais com a mesma profundidade que eu tenho. Venho à procura de todos eles, não de uma elite. Quero-os conhecer e alimentar-me deles tal como são”. Baixou a cabeça e fechou os olhos por um minuto. Depois levantou-se num ápice, baixou-se para passar pela entrada da cabana e dirigiu-se às árvores de fruto que tinha visto atrás da cabana do Velho. “Que belas maçãs o Velho aqui tem” – disse para consigo, ao mesmo tempo que colocava algumas delas no seu saco. “Este Velho é muito estranho” – pensou o demónio enquanto olhava melhor para as árvores do Velho – “mas trata-se muito bem”. De facto existiam três macieiras e todas elas eram diferentes. Até ao momento o demónio tinha colhido maças das duas macieiras mais próximas da cabana. Eram árvores frondosas, que quase escondiam a terceira árvore, que estava atrás delas, ao centro. No seu saco o demónio tinha maçãs verdes e maçãs vermelhas. Quando se aproximou da terceira macieira o demónio teve dificuldade em chegar aos seus frutos, pois os ramos estavam um pouco mais elevados e uniam-se num emaranhado que fazia lembrar um labirinto. Para seu espanto as maçãs desta árvore apresentavam-se num aspecto que nunca tinha visto: uma face do fruto era verde e a outra era vermelha. Colocou mais algumas destas maçãs no seu saco pois numa viagem pela terra dos mortais é preciso estar-se sempre preparado. “Nunca se sabe” – pensou em voz alta, enquanto deixava o quintal do Velho.
Ao passar pelo Poço sem Fundo o demónio parou. Olhou para o grande buraco que se encontrava mesmo à sua frente e deixou cair uma maçã, daquelas peculiares que nunca tinha visto até ao momento. Aguardou alguns segundos por um grito do Velho ou pelo som da maçã ao embater em qualquer coisa. Mas não aconteceu nada. O demónio ainda se deixou encantar mais algum tempo pelo Poço sem Fundo, olhando-o hipnotizado como se de uma fogueira se tratasse. Por fim lá deixou o buraco e seguiu pelo trilho que o havia guiado até este misterioso local. “Lembro-me que o Velho falou em ‘aldeia mais próxima’” – disse o demónio – “e é mesmo isso que procuro: mortais, ‘homens’, todos juntos. Nada melhor do que uma comunidade de homens para acabar este meu primeiro dia de uma excelente forma!”
Seguiu pelo caminho e pensou “Este caminho parece ter já alguns anos. Não é largo mas está bem trilhado, não existe uma única erva no seu seio. Muitos homens passam por aqui”. O demónio sabia que se quisesse chegar a um sítio especial, deveria evitar os caminhos trilhados pelos homens e seus animais, pelas massas de viajantes que seguem para as feiras e romarias. Esses caminhos que podem ser seguidos raramente terminam em algo distinto. Mas hoje o demónio queria encontrar aquilo que há muito desejava: homens – mortais e os seus espíritos fracos!
O caminho não era difícil de seguir, estava bem vincado por entre as espessas árvores e pesadas rochas. De tempos em tempos o demónio parava e perscrutava por algum indício da aldeia. Subia a um penedo e olhava em redor, observando os céus por um fio de fumo que lhe indicasse que a aldeia estava próxima. Por uma das vezes parou, e abriu o seu saco, escolhendo a maçã que lhe parecia mais madura. Enquanto comia a maçã e descansava um pouco, viu que o trilho seguia ainda por uma longa distância até penetrar numa densa floresta. Acabando de comer a maçã, levantou-se com um pequeno salto e pontapeou o caroço que restava. Deu uma gargalhada e ganhou ânimo para prosseguir o seu caminho. Pensou no estranho Velho e na sua solitária cabana, em como tinha sido bom conversar com alguém tão sábio e bem disposto. Olhou para o seu saco e, vendo uma das invulgares maçãs de duas cores, pensou no encanto que sentiu naquele local remoto. Mas agora tinha algo mais importante na sua mente, mal podia esperar pelo momento em que iria encontrar os portões daquela aldeia!
Sem notar o passar do tempo apercebeu-se que havia chegado à entrada da floresta. Olhou o céu mais uma vez para ver a posição do sol. “Ainda vai alto”, pensou, “a não ser que esta floresta seja de facto muito longa ainda hoje espero chegar à aldeia”. E assim irrompeu pela floresta, desconhecendo o que o esperava mas com um optimismo de quem sabe o que procura…