segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Aurora

Rasgando o solo, uma mão se ergue. Das insondáveis profundezas e do mais negro abismo um novo ser se levanta. E disse:

“Anuncio-vos o Demónio do Bem, aquele que nasceu dos campos de papoilas e prados dourados. O meu tempo chegou, e também eu sou obrigado a caminhar nesta terra de mortais, para deles me saciar. Mas não temais, espíritos fracos! Não vim para me alimentar daqueles que não me merecem. São os espíritos fortes e grandes que me fazem deixar o meu lar de campos verdejantes e prados infinitos. Sim, das profundezas de onde venho tudo brota vida e se lhes conhecessem o aspecto chamar-lhe-iam Paraíso. Mas é um lugar profundo e longínquo, e como tudo o que vos é intangível é - por defeito - pérfido, toma o nome de Inferno: o que será o vosso Inferno senão um paraíso inatingível? Todos querem crescer – para o céu! Todos querem voar – para o céu! Todos querem ver mais longe e mais além, e para isso encostam telescópios ao seu olho e olham – para o céu! Assemelham-se a uma árvore que se estica para chegar mais perto do astro que lhe dá a luz, e que fala:

– A luz é a minha energia. Faz a minha seiva correr, conta os dias com a sua intermitência. Nada me pede em troca para me banhar com o seu ouro. Torna um dia mau num dia radioso. Amo a luz, e para ela me dirijo.

Mas poderão as árvores voar? Tal como a árvore que se estica para o Sol vós colocastes o vosso referencial no vosso exterior, lá em cima no vosso Sol. E o vosso Sol olha-vos como um ponto insignificante, tal a distância a que vos encontrais. Não caiam no erro da árvore que estica, sejam a vossa própria medida. Não vemos as raízes de uma árvore – encontram-se nas profundezas. E para quem não vê através da terra que suporta a árvore são iguais as raízes que se estendem por um palmo e as que se prolongam até às profundezas mais longínquas: são ambas invisíveis, e poderíamos facilmente enganarmo-nos e classificá-las de igual modo – subterrâneas!

Anuncio-vos o Demónio do Bem, aquele que deixou as profundezas para as trazer a vós. Mas não temais, espíritos fracos! Não vos vim tirar a alma, mas se a tirasse dar-lhe-ia um sentido – e um fim!

Vim para me saciar de vós, mortais, mas também para vos saciar. Todo o meu lucro será o lucro de quem me conseguir compreender, e esse alimentar-se-á de mim, tornando-me maior.”