Vendo-se sozinho, ainda surpreendido com o que acabara de presenciar, o demónio olhou para o Poço e esperou. Não tendo escutado nada, decidiu dar uma olhadela pelas redondezas da cabana. Atrás da cabana do Velho havia um pequeno quintal, bem cuidado, e algumas árvores de fruto. Voltou-se para a cabana. Sem o Velho a cabana parecia ainda mais pequena e, embora fosse visível que estava bem tratada, era bastante rústica. Dirigindo-se para a entrada da cabana o demónio olhou novamente à sua volta: para além do poço, do quintal e das árvores, pouco mais era possível deslumbrar do que espessas árvores e largos penedos. O caminho que havia seguido e, pensou ele, o levaria a um local mais “humanizado” acabava precisamente na entrada da cabana. Baixando-se, entrou na cabana do Velho. Para além de uma mesa ampla, um banco e o leito do velho, nada mais lá havia. Sentou-se para pensar no rumo a tomar; o que faria agora, que o único mortal com quem tinha privado havia desaparecido abruptamente? Tinha acabado de chegar ao mundo dos “Homens”, não fazia parte dos seus planos enfiar-se num buraco a que o Velho chamava de Poço sem Fundo. E pensou: “Mesmo que o Velho tivesse razão e esse poço tivesse um fundo de acordo com o infeliz que lá caísse, qual seria esse fim? No limite encontrar-me-ia com mortais com a mesma profundidade que eu tenho. Venho à procura de todos eles, não de uma elite. Quero-os conhecer e alimentar-me deles tal como são”. Baixou a cabeça e fechou os olhos por um minuto. Depois levantou-se num ápice, baixou-se para passar pela entrada da cabana e dirigiu-se às árvores de fruto que tinha visto atrás da cabana do Velho. “Que belas maçãs o Velho aqui tem” – disse para consigo, ao mesmo tempo que colocava algumas delas no seu saco. “Este Velho é muito estranho” – pensou o demónio enquanto olhava melhor para as árvores do Velho – “mas trata-se muito bem”. De facto existiam três macieiras e todas elas eram diferentes. Até ao momento o demónio tinha colhido maças das duas macieiras mais próximas da cabana. Eram árvores frondosas, que quase escondiam a terceira árvore, que estava atrás delas, ao centro. No seu saco o demónio tinha maçãs verdes e maçãs vermelhas. Quando se aproximou da terceira macieira o demónio teve dificuldade em chegar aos seus frutos, pois os ramos estavam um pouco mais elevados e uniam-se num emaranhado que fazia lembrar um labirinto. Para seu espanto as maçãs desta árvore apresentavam-se num aspecto que nunca tinha visto: uma face do fruto era verde e a outra era vermelha. Colocou mais algumas destas maçãs no seu saco pois numa viagem pela terra dos mortais é preciso estar-se sempre preparado. “Nunca se sabe” – pensou em voz alta, enquanto deixava o quintal do Velho.
Ao passar pelo Poço sem Fundo o demónio parou. Olhou para o grande buraco que se encontrava mesmo à sua frente e deixou cair uma maçã, daquelas peculiares que nunca tinha visto até ao momento. Aguardou alguns segundos por um grito do Velho ou pelo som da maçã ao embater em qualquer coisa. Mas não aconteceu nada. O demónio ainda se deixou encantar mais algum tempo pelo Poço sem Fundo, olhando-o hipnotizado como se de uma fogueira se tratasse. Por fim lá deixou o buraco e seguiu pelo trilho que o havia guiado até este misterioso local. “Lembro-me que o Velho falou em ‘aldeia mais próxima’” – disse o demónio – “e é mesmo isso que procuro: mortais, ‘homens’, todos juntos. Nada melhor do que uma comunidade de homens para acabar este meu primeiro dia de uma excelente forma!”
Seguiu pelo caminho e pensou “Este caminho parece ter já alguns anos. Não é largo mas está bem trilhado, não existe uma única erva no seu seio. Muitos homens passam por aqui”. O demónio sabia que se quisesse chegar a um sítio especial, deveria evitar os caminhos trilhados pelos homens e seus animais, pelas massas de viajantes que seguem para as feiras e romarias. Esses caminhos que podem ser seguidos raramente terminam em algo distinto. Mas hoje o demónio queria encontrar aquilo que há muito desejava: homens – mortais e os seus espíritos fracos!
O caminho não era difícil de seguir, estava bem vincado por entre as espessas árvores e pesadas rochas. De tempos em tempos o demónio parava e perscrutava por algum indício da aldeia. Subia a um penedo e olhava em redor, observando os céus por um fio de fumo que lhe indicasse que a aldeia estava próxima. Por uma das vezes parou, e abriu o seu saco, escolhendo a maçã que lhe parecia mais madura. Enquanto comia a maçã e descansava um pouco, viu que o trilho seguia ainda por uma longa distância até penetrar numa densa floresta. Acabando de comer a maçã, levantou-se com um pequeno salto e pontapeou o caroço que restava. Deu uma gargalhada e ganhou ânimo para prosseguir o seu caminho. Pensou no estranho Velho e na sua solitária cabana, em como tinha sido bom conversar com alguém tão sábio e bem disposto. Olhou para o seu saco e, vendo uma das invulgares maçãs de duas cores, pensou no encanto que sentiu naquele local remoto. Mas agora tinha algo mais importante na sua mente, mal podia esperar pelo momento em que iria encontrar os portões daquela aldeia!
Sem notar o passar do tempo apercebeu-se que havia chegado à entrada da floresta. Olhou o céu mais uma vez para ver a posição do sol. “Ainda vai alto”, pensou, “a não ser que esta floresta seja de facto muito longa ainda hoje espero chegar à aldeia”. E assim irrompeu pela floresta, desconhecendo o que o esperava mas com um optimismo de quem sabe o que procura…