terça-feira, 20 de maio de 2008

O Poço

O demónio, intrigado com a sapiência do Velho, perguntou-lhe: “Velho, pela tua sabedoria depreendo que já viajaste muito. Conheces bem esta terra de mortais?” O Velho respondeu-lhe: “Sabes demónio, em primeiro lugar deixa-me só elucidar-te um pouco sobre os habitantes deste mundo. Aqueles a quem chamas mortais preferem ser denominados “Homens”. Não lhes lembres que não são eternos. A ideia de morte impõe-lhes respeito e poderias até reunir muitos discípulos à tua volta, mas não te iriam compreender verdadeiramente. Sei-o porque sou um deles.” O Velho estava sempre com um sorriso na cara, e falava fluída e docemente. E continuou: “Bem, mas isto não responde à tua pergunta. Sim, viajei por diferentes países e culturas, mas a minha maior viagem foi neste preciso local…” O demónio olhou em volta e nada mais viu para além da cabana do Velho, o poço e umas árvores em volta. O Velho prosseguiu: “Já não era novo quando aqui cheguei, mas esta minha descoberta fez-me ficar por cá. Construí esta cabana e aqui passo os meus dias…” Ao dizer estas palavras e quase sem se mexer, o Velho puxou por uma esteira que se encontrava perto do poço, o que revelou um grande buraco. O demónio, que se levantou para melhor ver o buraco que o Velho lhe apresentava disse com uma voz de gozo: “Eh velho matreiro… grande armadilha aqui tens tu… até eu poderia já ter caído!” Mas ao aproximar-se mais ficou em silêncio. O buraco era de facto muito fundo. O velho continuou: “Descobri-o por acidente. E que acidente! E desde esse dia não mais daqui saí. Não sou o seu dono, nem o seu guardião, mas o seu companheiro.”

O demónio estava espantado. Sabia que iria encontrar muitos “homens” estranhos… mas este Velho até era bastante culto e sabedor e no entanto parecia apaixonado por um buraco! E com um ar incrédulo o demónio olhava repetidamente para o buraco e para o Velho. Com a sua habitual calma, o Velho, que ainda se encontrava sentado, continuou: “Quando vieste ao meu encontro fizeste-o por causa do meu poço e da tua sede. Com o seu muro, balde e roldana o meu poço chamou-te ao seu encontro. É de facto um bom poço e a sua água é refrescante. Mas este aqui – e só nesse momento o Velho olhou pela primeira vez para o grande buraco que tinha posto a descoberto – é o Poço sem Fundo!”

Dando pequenos saltos em volta do Poço sem Fundo, o Velho parecia louco e soltava pequenas gargalhadas. O demónio estava atónito, mas o Velho, ignorando-o completamente, continuou com a sua estranha dança. Por fim, olhando para dentro do grande buraco dirigiu-se ao demónio, explicando com grande euforia:

“Este é o Poço sem Fundo, e de facto… não tem fundo! Salta e descobre a tua profundidade! Salta e encontra-te a ti próprio! Mas já te aviso: O poço não tem fundo, mas cada um de nós tem! Uma vez dentro do poço não podes parar até encontrares o teu limite. É inútil agarrares-te ao que já passou, o caminho é a queda! Quanto mais tarde parares maior será a queda. Quem desce muito é de facto, profundo. Tem, no entanto, de aguentar a sua queda, a sua profundidade.”

O demónio, incrédulo com o que se estava a passar e ainda mais céptico relativamente ao discurso do Velho e à possibilidade de algum poço não ter fundo ficou sem reacção. O Velho por seu lado retomou a sua estranha dança, saltitando alegremente e soltando gargalhadas. Por fim parou subitamente, e repetiu: “O fundo está em cada um de nós.”

E dito isto, com um pequeno salto, deixou-se engolir pelo Poço sem Fundo…

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Velho

“Não sou um anjo caído” - disse o Demónio do Bem. E continuou: “o meu caminho foi longo e desgastante até aqui chegar. Para quem cai o caminho é fácil, quem ascende tem o percurso dificultado. Cair lentamente é certamente mais difícil do que cair rapidamente. Está na natureza das coisas. Subir sem descansar é fatigante.” E nesse momento o Demónio do Bem sentiu que precisava de um bom pequeno-almoço, e então caminhou por uma vereda que aparentava levar a algum sítio um pouco mais “humanizado”. Não tardou a encontrar uma cabana com um poço, e ao aproximar-se apercebeu-se que ao lado do poço estava sentado um Velho. De aspecto calmo e vertical, o Velho estava de olhos fechados e aparentava estar adormecido, o que fazia lembrar uma estátua numa estranha figura. Aproximando-se do Velho o Demónio do Bem proferiu num tom alto: “Velho! Já o sol banha as tua cabana e o teu poço! São horas de acordar e dar uso à roldana e ao balde!”

Após ter dito estas palavras e ter estranhado o facto do Velho não se mexer nem um milímetro o Demónio do Bem já se preparava para dizer mais qualquer coisa quando foi interrompido pela voz serena do Velho, que, mantendo os olhos fechados, lhe disse: “Reconheço estes passos… trazem consigo uma profundidade que há muito não sentia. A voz, por outro lado, é altaneira e faz lembrar o eco dos mais altos cumes. Quem vem perturbar os pensamentos deste humilde velho?” Foi então que o Velho abriu os olhos e levantou-se num salto. Olhando para o Demónio do Bem e dirigindo-se para o seu poço, continuou: “Sinto uma profundidade que há muito não sentia. Não te reconheço em nenhum dos homens da aldeia mais próxima e não pareces um caminhante. Estarás tu perdido?” O Demónio do Bem, estranhando o modo como o Velho se movimentava calmamente e nada preocupado com a sua presença, perguntou-lhe: “Surpreendes-me, ò velho. Não te apoquenta a presença de um demónio? Sim! Não sou destas paragens, mas não estou perdido, fiz um longo caminho para aqui chegar… vim das profundezas insondáveis e do abismo mais negro! Trago muito para anunciar a este mundo de mortais! Não ouviste o meu grito ao sair do solo? Anunciei-me e anunciei a minha caminhada por este mundo…” Mas o Demónio do Bem parou o seu discurso. O Velho, puxando pela corda que traz o balde com a água do poço e, sem encarar o demónio, apenas abanava a cabeça e sorria. Por fim, disse: “Anunciaste a tua vinda? Ahh… muito bem… mas terá alguém ouvido o que disseste?” O Demónio do Bem parou e sentiu-se envergonhado. De facto preparou a sua vinda, o seu discurso, o seu caminho. Mas não tinha preparado os seus ouvintes…

O Velho, já com o balde cheio de água fresca, continuou: “Nada foi dito até ser ouvido. Mas sei do que falas… das profundezas… eu já lá estive, uma vez.”

– “Impossível! – disparou o demónio – de onde eu venho nenhum mortal conhece o aspecto… como poderias ter lá estado?”

Mas o Velho ignorou o que o demónio acabara de dizer e apenas lhe pediu que se sentasse. Repartiu a água por dois copos de madeira grossos e dirigindo-se ao demónio disse: “Reconheço uma grande vontade em ti, e empenho nesta tua missão. Vejo também um certo desconhecimento das coisas mais básicas deste mundo. Bebamos esta água e… vamos conversar!”

O Demónio do Bem tomou então a palavra e explicou ao Velho o motivo da sua subida ao mundo dos mortais e o seu objectivo de divulgar as profundezas. Conversaram muito até que o Velho lhe propôs o seguinte: iriam almoçar e continuariam a sua conversa depois disso. O Velho entrou na cabana e trouxe duas sopas e um pedaço de pão.

Depois de terem terminado o almoço e o Velho ter lavado as tigelas e as colheres e as ter posto a secar no muro do poço, disse:

“A melhor forma de aprender é ensinar, e a melhor forma de ensinar é fazer.”