terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Lebre

Entrando na densa floresta o demónio parou para se habituar a este novo ambiente. Subitamente o ar ficou mais fresco e o brilho do sol perdia-se nas sucessivas camadas de folhas e vegetação. Embora fosse possível distinguir o caminho por entre as árvores este já não era tão facilmente reconhecido como até então. O chão estava coberto de folhas de diferentes tons, que formavam uma camada espessa mas leve. Avançando pelas folhas o demónio sentiu que de certo modo se afastava daquilo que procurava. Agora tudo lhe parecia mais natural, espontâneo e genuíno: o trilho que até então tinha percorrido era nitidamente um rasgo feito pelo Homem na natureza. A harmonia que agora experimentava era de certa forma contrária àquilo que buscava, pois a assinatura humana era muito mais subtil. Apesar desta sua percepção o demónio sabia que para trás nada iria encontrar para além da abandonada cabana do Velho e como tal seguiu o seu caminho. Por vezes não era fácil distinguir o percurso correcto, mas com o passar do tempo o demónio foi-se adaptando a esta nova realidade e os seus sentidos estavam alerta para seguir o rumo correcto. A paisagem não se alterou muito e, embora fosse mais difícil avançar por este terreno do que por caminhos humanos, o demónio não se deixou abalar e continuou. Por fim, o que restava do caminho terminou numa pequena clareira de erva rasa e verdejante. Avançando com curiosidade, o demónio apressou-se a percorrer o espaço diante de si, sentindo uma brisa húmida e um leve burburinho, para encontrar um largo rio na sua frente. Esboçou um sorriso ao ver que na margem, mesmo ao seu lado, havia um pequeno cais que entrava pelo rio adentro. Sentia de novo a presença humana e aquela simples construção em madeira deu-lhe um novo alento para continuar o seu caminho até à aldeia mais próxima, para estabelecer contacto com os humanos, o propósito da sua visita ao mundo dos mortais…
Mas, depois de ter examinado o local com mais atenção, o demónio sentou-se na beira do cais, pernas caídas, encarando jusante, de olhar baixo posto no rio, pensando nos locais por onde toda aquela massa de água passaria, muitos deles repletos de humanos. O cais era velho e estava nitidamente abandonado. Muitas das tábuas que compunham o passadiço estavam em falta, não existia qualquer espécie de corda ou amarra presa aos pilares que suportavam o cais e, para além das suas recentes pegadas, toda a margem em volta do cais estava imaculadamente intocada. O rio afigurava-se largo e profundo, com uma vitalidade incomum para algo tão grande, aparecendo por entre as árvores e desaparecendo de igual modo, não deixando antever qualquer tipo de construções humanas ou paisagem diferente. Sentado no cais, o demónio fechou os olhos para pensar melhor no que faria a seguir: “Se aqui existe este cais, ainda que abandonado, significa que este rio me levará ao meu destino. Posso construir uma jangada e desse modo percorrer uma grande distância sem grande esforço e, ainda melhor, chegar muito provavelmente a um local habitado…”
Mas subitamente o demónio parou de pensar. Todo um conjunto de sensações começaram a apoderar-se do seu cérebro e ele deixou-se levar pela leveza de pensamentos que lhe eram transmitidos directamente pela natureza em seu redor. Ouvia agora os pássaros a cantar as suas diferentes melodias, ouvia o submerso gargarejar do rio ao deslizar por entre as rochas do seu leito, ouvia o silvar da brisa por entre os juncos e o ranger dos ramos… de repente abriu os olhos, olhou em volta e deixou que todas estas novas sensações lhe dessem a resposta que procurava. O caminho que até então tinha seguido era, de forma mais ou menos óbvia, pisado por humanos e facilmente identificável. Mas na natureza existem muitas criaturas e muitos trilhos, caminhos dispostos a ser seguidos desde que devidamente identificados. Semicerrando os olhos, o demónio levantou-se e olhou em seu redor mais uma vez. Sorriu. O que há momentos atrás era um beco sem saída apresentava-se agora como um quadro cheio de cores: as indicações estavam mesmo diante dos seus olhos, nada mais havia a fazer do que segui-las. Tudo era igual, tudo era diferente, dependia apenas dos olhos com que se olhava…
Embrenhando-se por entre o arvoredo que ladeava a margem do rio, o demónio chegou a um pequeno trilho, usado por pequenos animais para beber a água do rio. Agachado, continuou a seguir o trilho, por entre arbustos, árvores de pequeno porte e erva alta, com a atenção necessária para não se deixar perder nas subtilezas dos sinais que a natureza lhe apresentava…
De repente chegou a uma nova clareira, de erva aloirada e contornada de erva alta. Desta vez avançou com o cuidado e metodologia de quem decifrava um código e, olhando para onde terminava a clareira, viu uma lebre, parada e olhando na sua direcção…