O demónio, intrigado com a sapiência do Velho, perguntou-lhe: “Velho, pela tua sabedoria depreendo que já viajaste muito. Conheces bem esta terra de mortais?” O Velho respondeu-lhe: “Sabes demónio, em primeiro lugar deixa-me só elucidar-te um pouco sobre os habitantes deste mundo. Aqueles a quem chamas mortais preferem ser denominados “Homens”. Não lhes lembres que não são eternos. A ideia de morte impõe-lhes respeito e poderias até reunir muitos discípulos à tua volta, mas não te iriam compreender verdadeiramente. Sei-o porque sou um deles.” O Velho estava sempre com um sorriso na cara, e falava fluída e docemente. E continuou: “Bem, mas isto não responde à tua pergunta. Sim, viajei por diferentes países e culturas, mas a minha maior viagem foi neste preciso local…” O demónio olhou em volta e nada mais viu para além da cabana do Velho, o poço e umas árvores em volta. O Velho prosseguiu: “Já não era novo quando aqui cheguei, mas esta minha descoberta fez-me ficar por cá. Construí esta cabana e aqui passo os meus dias…” Ao dizer estas palavras e quase sem se mexer, o Velho puxou por uma esteira que se encontrava perto do poço, o que revelou um grande buraco. O demónio, que se levantou para melhor ver o buraco que o Velho lhe apresentava disse com uma voz de gozo: “Eh velho matreiro… grande armadilha aqui tens tu… até eu poderia já ter caído!” Mas ao aproximar-se mais ficou em silêncio. O buraco era de facto muito fundo. O velho continuou: “Descobri-o por acidente. E que acidente! E desde esse dia não mais daqui saí. Não sou o seu dono, nem o seu guardião, mas o seu companheiro.”
O demónio estava espantado. Sabia que iria encontrar muitos “homens” estranhos… mas este Velho até era bastante culto e sabedor e no entanto parecia apaixonado por um buraco! E com um ar incrédulo o demónio olhava repetidamente para o buraco e para o Velho. Com a sua habitual calma, o Velho, que ainda se encontrava sentado, continuou: “Quando vieste ao meu encontro fizeste-o por causa do meu poço e da tua sede. Com o seu muro, balde e roldana o meu poço chamou-te ao seu encontro. É de facto um bom poço e a sua água é refrescante. Mas este aqui – e só nesse momento o Velho olhou pela primeira vez para o grande buraco que tinha posto a descoberto – é o Poço sem Fundo!”
Dando pequenos saltos em volta do Poço sem Fundo, o Velho parecia louco e soltava pequenas gargalhadas. O demónio estava atónito, mas o Velho, ignorando-o completamente, continuou com a sua estranha dança. Por fim, olhando para dentro do grande buraco dirigiu-se ao demónio, explicando com grande euforia:
“Este é o Poço sem Fundo, e de facto… não tem fundo! Salta e descobre a tua profundidade! Salta e encontra-te a ti próprio! Mas já te aviso: O poço não tem fundo, mas cada um de nós tem! Uma vez dentro do poço não podes parar até encontrares o teu limite. É inútil agarrares-te ao que já passou, o caminho é a queda! Quanto mais tarde parares maior será a queda. Quem desce muito é de facto, profundo. Tem, no entanto, de aguentar a sua queda, a sua profundidade.”
O demónio, incrédulo com o que se estava a passar e ainda mais céptico relativamente ao discurso do Velho e à possibilidade de algum poço não ter fundo ficou sem reacção. O Velho por seu lado retomou a sua estranha dança, saltitando alegremente e soltando gargalhadas. Por fim parou subitamente, e repetiu: “O fundo está em cada um de nós.”
E dito isto, com um pequeno salto, deixou-se engolir pelo Poço sem Fundo…
1 comentário:
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